Drummondiano

no meio do caminho tinha uma mulher
tinham mil caminhos no meio da mulher
no meio do caminho
tinham mil caminhos

nunca me esquecerei daquelas pernas
e do tufo moreno que nelas se plantavam
nunca me esquecerei daqueles caminhos
naquela mulher
tinham mil caminhos entre as pedras
no meio do caminho tinha uma mulher.

(Alexandre Palitot, Linaldo Guedes, Fábio Albuquerque, Wilton Júnior)

Deu no jornal

Enfoque

Muro baixo

Poetas do movimento Poecodebar disseram que a Academia Paraibana de Poesia é recheada de velharia.
A professora Helena Raposo, que não tem papas na língua e é presidente da Academia, não se faz de rogada e disparou:
- Eles são piores que o papel higiênico.

(Jornal o Norte, 10 de agosto de 1992)

Fotopsia

as fotos revelam ausência
as bocas cantam tua distância
em meu peito o sangue chora

as máquinas em triste sonolência
as mãos imaginam tua infância
em meus olhos o choro sangra.

 

Novos dizem o que não sabem, garante Jairo

No último dia 2 de agosto do corrente ano foi publicada matéria jornalística "São os novos que falam", na página 8 do jornal Correio da Paraíba. Na verdade, falam mesmo o que não sabiam, não podiam e não deviam. Primeiro, levando-se em conta a total irresponsabilidade de declarações, sendo até passível de processo judicial por tamanhas aberrações. Segundo, pelo total e periférico desconhecimento dos eventos culturais da Paraíba e das atividades da emérita Academia Paraibana de Poesia. Julgando-se pioneiros naquilo que já foi Transitado e Julgado, como fazer poesia em bar, ofício esse já praticado por Vinicius de Moraes, Toquinho, Gregório de Matos, Castro Alves, Machado de Assis e seus antecessores, sendo uma idéia tão original e inédita quanto a idade paleolítica. "Inútil" certamente a Academia deve ser para aqueles que não conhecem seu trabalho.
A crítica, ela é válida sim, quando ela se propõe a alguma coisa; não apenas criticar por criticar para aparecer em jornais com manchetes bombásticas, à procura de uma luz na escuridão, pois os verbos gritar e berrar, a gramática já os codificam bem. "Zuada e barulho" é típico da incoerência e isso, qualquer um faz. Todavia, se faz mister, quando se falar, saber o que diz e usar da lógica e metodologia fundamentada, não simplesmente por aparecer ou amossegar-se em instituições sérias como a Academia, puramente por ignorância de suas atividades e frustração de não fazer parte de suas atividades.
Inutilidade, velhice e falta de oportunidade, palavras melancólicas, desesperadas e caóticas para aquilo que se propõem. E para os desavisados e subnutridos de informação, o que é lamentável para os futuros "profissionais de comunicação", completamente alheios ao fato e à notícia, no último 27 de julho deste ECO ano 92, a "Inútil" Academia promoveu solenidade de encerramento a uma série de palestras sobre a obra e a vida do imortal Silvino Olavo; da obra do poeta e escritor João de Deus, contando com diversas autoridades do meio; neste mês iniciará o lançamento de sua brilhante aquisição, a jovem poeta Tânia Rocha, com seu livro "Imaginação Solta". Também em agosto, a Academia fundará a UBT (União Brasileira de Poetas e Trovadores), seção Paraíba, já com a diretoria pronta e documentação necessária; em meados de setembro participará do II Congresso Literário Brasileiro, em Campina Grande, fazendo também palestras sobre a obra de Augusto dos Anjos nas escolas municipais e estaduais e estendendo-se também às cidades do sertão paraibano e, concluindo suas atividades, com o encerramento do curto de Poetas e Sonetistas Turma 92.2, em dezembro, tendo como paraninfo da turma o poeta e governador Ronaldo Cunha Lima, que também teve seu disco "Sem limites", lançado pela Academia alguns anos atrás.
A palavra "Inútil" (derivada do latim "inutile") sinônimo de obsoleto, imprestável, sem qualquer utilidade, não parece fazer jus a uma instituição que promove eventos culturais, mensalmente e às vezes até semanalmente, que os "menininhos" intitulados poetas que ninguém sabe por quem e de onde... assim a denominaram. A experiência é irmã da sabedoria, prima da filosofia, mãe de todas as ciências. Criticar as pessoas mais idosas e experientes que não conhecem e nem sequer sabem o que fazem, é antes de tudo anti-ético, imprudente, imoral, devido aos trabalhos já prestados à educação e à cultura deste estado. Enquanto os menininhos ainda trocavam fraldas, a maioria dos acadêmicos da Academia já fazia poesia, poesia de conteúdo e substância, com estilo, métrica, rima e soneto. Não palavras obscuras, escritas em portas de banheiro, papel higiênico e guardanapos.
Quanto ao espaço ou à procura da luz do sol, um também conhecido poeta paraibano já dizia que "quem sabe faz a hora não espera acontecer" - Geraldo Vandré.
E quem tem competência se estabelece, como a nova geração de poetas da Academia, a jovem Tânia Rocha e o mais recente imortal da Academia, Martinho Ramalho Melo, que se estabeleceram com o seu trabalho, esforço e dedicação, tendo suas obras reconhecidas pela Academia, sem esquecer o talentoso e também jovem Ricardo Bezerra, que hoje é reconhecido intelectualmente não só na Paraíba, mas em todo o Brasil. Todos fazendo parte de uma proposta de renovação séria da "Inútil" Academia, sobre pessoas que realmente têm um trabalho e uma mensagem de cultura e de vida para a população. Além disso, já pregava esse espírito o meu amigo e orador de todos os tempos, o acadêmico Amaury de Vasconcelos, em suas palavras na posse do reitor Antônio Sobrinho, da UFPB, na memorável Academia Paraibana de Letras: "As instituições culturais e educacionais estão acima de qualquer coisa". Ignorar o velho, antigo, tradicional, passado e experiência é ignorar nossa própria história.

CONTINUAÇÃO

Para o grande pensador e filósofo grego chamado Platão: "Não se pode pensar no futuro, sem olhar para o passado". As nossas vidas e o cotidiano já têm nos demonstrado isso; já o Messias da imprensa nacional, Assis Chateaubriand, que este comemora seu centenário, sempre foi um inovador, um homem de vanguarda, à frente de seu tempo, sendo sempre um contestador, mas com críticas construtivas, sem agressão ou sem a pretensão de ser o dono do mundo, do certo e do errado, com uma sapiência e consenso sem igual, razões pelas quais sempre foi admirado por seus adversários, se é que na verdade teve algum à sua altura.
Tampouco os filósofos iluministas René Descarte, John Locke e Isaac Newton, que também sempre foram oposicionistas ao tradicional sistema, mas através de seus ideais e posicionamentos revolucionaram os pensamentos da humanidade, dando uma nova diretriz e impulso às futuras reivindicações sociais que estavam por vir, sem esquecer Montesquieu, em seu "Espírito das Leis", que proporcionou um novo doutrinamento na aplicação das ciências jurídicas e sociais, ou tampouco Rousseau e Voltaire, que na França idealizaram uma série de mudanças sociais, servindo de subsídio até hoje às novas concepções políticas, sociais, econômicas da democracia moderna. Na Literatura, a transformação sempre esteve presente com Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues, José do Rego; ou na Pintura de Guernica, de Picasso, na Música de Beethoven, Strauss e Tchaikovski, a mudança e inconformismo atuaram no papel principal. Por conseguinte, mudar, transformar e protestar fazem parte da humanidade desde que o homem é homem e que ele comeu a maçã do pecado, desobedecendo a Deus, seu primeiro e único criador, só que deve haver maneira certa e correta e, segundo seu filho Jesus: "Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra". Ou seja, não julgue para não ser julgado, nem tampouco pré-julgar o que não se sabe ou não se tem conhecimento, nem intitular-se o dono da razão, pois esta é fruto da idéia tão sabiamente explanada por S. Tomás de Aquino em suas doutrinas religiosas, mas sem jamais agravar as religiões contrárias à sua fé.
A contradição é o princípio maior de uma sociedade politicamente organizada, desde que seja devidamente usada, pois o seu descumprimento implicará em liberalidade e libertinagem, e não em liberdade, que é o direito do cidadão de ir e vir e fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Contudo, agredir à Academia é ferir a cultura paraibana, é manchar as cores da bandeira do Nego, é repudiar os ideais de Epitácio Pessoa. Agredir pelo livre prazer, é no mínimo uma prova cabal e fiel de insanidade mental e loucura, a uma instituição que ao longo de sua história vem enaltecendo em nome da Cultura, a educação, a arte, a poesia da Paraíba, instituição essa que mantém-se na fortaleza da sabedoria, disparando seus canhões contra a ignorância e o analfabetismo, seus inimigos seculares. Em suas muralhas, ostenta a linha de fogo com José Lins do Rego, Ariel Farias, D. Adauto e José Américo; em sua retaguarda com versos lúdicos e sonetos telúricos, com Balila Palmeira, Abigail Pereira e Lindalva Xavier, todas abastecidas pela oratória inflamante e certeira de Diva Batista, com a bandeira na mão, a musa da Literatura Paraibana e presidente Helena Raposo Carneiro da Cunha, sendo escoltada nas laterais pelos poetas e historiadores Adauto Ramos e Zilma Ferreira e tantos outros que suas vidas se confundem com a própria cultura e literatura da Paraíba e do Brasil.
Este emérita Casa que conquistou seu lugar ao sol com sangue, suo e lágrima, fazendo hoje parte da própria cultura nacional, sendo reconhecida e mantendo lanços de intercâmbios culturais pelas próprias Academias Brasileiras e Paraibana de Letras, pela Ordem Nacional dos Escritores, União Brasileira de Poetas e Trovadores, Instituto Histórico da Paraíba, entre dezenas de entidades nacionais, diversas vezes homenageadas na Tribuna do Congresso Nacional pela ex-senador Marcondes Gadelha e o senador Humberto Lucena, entre outros parlamentares daquela Casa, pelo reconhecimento do seu trabalho e empenho pró-cultural e pelo esforço pessoal de seus acadêmicos. Sem dúvida alguma, hoje tenho certeza que falar é fácil, mas constituir um nome, um patrimônio cultural onde divulgar poesia e arte é um dogma sagrado. Para mim, ainda acredito na seriedade das pessoas e no que elas dizem, pois "o verbo, a palavra, a oratória e a poesia são as armas mais importantes daqueles que refletem a sua própria existência".

JAIRO RANGEL TARGINO (advogado militante, educador, poeta, professor e acadêmico da Academia Paraibana de Poesia)
Texto publicado no jornal A União, em 9 de agosto de 1992

Bardauê

a gula
de tantos instintos
a bula
de todos os desejos
embutidos na tua boca

somente você
pode fecundar o beijo
para incendiar a noite gelada.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Último vesperal

na véspera do fim do mundo
vou vestir o luto dos mortais
cuspir o fogo da heresia
e ressuscitar as almas do apocalipse

na véspera do fim do mundo
vou cantar a valsa da agonia
catar flores para túmulos incrédulos
e vomitar o preto nos jardins dos sádicos

na véspera do fim do mundo
serei uma criança perdida num jardim sem infância
um deus invisível na claridade do dia
um demônio visível na escuridão da noite

na véspera do fim do mundo
recitarei minha última poesia
e vestirei minha última fantasia
quando for esmagado pelas palavras.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Ecos do Poecodebar

"Movimento brincadeira" ressuscita imortais

Linaldo Guedes

"a tua piscina está cheia de ratos/ tuas idéias não correspondem aos fatos/ o tempo não pára". (Cazuza)

 Peço licença à excelentíssima Academia Paraibana de Poesia para fazer algumas divagações sobre os últimos acontecimentos envolvendo os integrantes do grupo Poecodebar. Não queremos polemizar com a Academia, até mesmo porque ficou patente neste fim de semana que ela é mais importante para o Congresso Nacional do que para a poesia paraibana. De qualquer forma, não dá para ficar calado após ler tantos insultos saídos das bocas de pessoas que se dizem cultas. Aliás, no cômputo geral, recebemos mais elogios do que insultos.
 Nos chamaram de vírus. Tudo bem. Assumimos com prazer essa definição. Às vezes, o vírus é utilizado para combater a própria doença e é isso basicamente o que queremos. Nosso objetivo já está sendo alcançado em parte. Queremos combater a doença do preconceito contra o "novo" de algumas pessoas que se dizem poetas apenas porque sabem fazer sonetos. E quem disse que poesia se resume a sonetos? Se assim fosse, não existiria poesia em Oswald de Andrade. Gostamos de alguns sonetos de alguns poetas brasileiros, como Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, mas não temos o mínimo tesão para faze-los. Fazer soneto é como andar de gravata e palitó. Tira a liberdade e nós estamos justamente combatendo esta escravidão da poesia paraibana aos métodos que hoje são tão antigos e ultrapassados quanto defender a instalação de um regime comunista nos moldes do que existia na antiga União Soviética.
 Como falei, nosso objetivo está sendo aos poucos atingido. Durante a premiação no Concurso de Poesias do Sesc, onde dois integrantes do Poecodebar ficaram entre os três primeiros colocados, conversamos com Saulo Mendonça e ele nos disse que estava disposto a abrir um espaço para os novos no Correio das Artes. Domingo, em sua coluna no CORREIO, Sérgio de Castro Pinto, um dos poucos poetas da velha geração que admiramos, disse também que estava abrindo espaço para a jovem poesia feita em João Pessoa. Para nós, foram duas provas incontestáveis de que estamos no caminho certo.
 Não temos a mínima frustração por não pertencermos aos quadros da excelentíssima Academia Paraibana de Poesia. Percebemos domingo, que a linguagem utilizada lá dentro não é a mesma que é utilizada nas ruas e nos bares pessoenses. Preferimos continuar escrevendo em portas de banheiro, papel higiênico e guardanapos do que escrever para ser reconhecido pelo Congresso Nacional. Não fazemos poesia para políticos.
 Um "deles" insinuou que poderíamos ser alvos de um processo judicial. Não temos medo. Afinal, será que a função da Academia é esta? Se estamos desinformados sobre as atividades da Academia, é porque a divulgação não está sendo bem feita. Talvez estejam precisando de um assessor de imprensa. Por que não contratam um? Existem tantos jornalistas desempregados neste Estado...
 Poecodebar não é um "movimento brincadeira", como afirmaram alguns antes do lançamento do nosso manifesto, e muito menos um movimento "pré-fabricado", como disseram outros. Não temos a intenção de liderar um movimento literário. Temos, sim, propostas que são sérias. Queremos procurar a luz na escuridão, sem o mínimo ranço com os velhos. Respeitamos a todos, mas queremos que todos nos respeitem também. Quem soube ler a entrevista de Wilton Júnior e Fábio Albuquerque a Chico Noronha, percebeu claramente a nossa proposta. No fundo, preferimos ser uns "pobres diabos" do que intocáveis deuses. Estamos cansados de tanto sermos pisados por dinossauros.
 Para não cansar a paciência do leitor com tanta polêmica inútil, transcrevo aqui um poema de Wilton Júnior feito no último domingo. Ele resume um pouco a nossa visão sobre a Academia Paraibana de Poesia:
 "em minha língua/ a ferramenta exata/ para construir sua ira/ meus punhos e dedos/ responsáveis pelo seu ódio/ e insônia/ minha coragem/ cavalgando sobre suas rugas/ não me importam os chás/ -cogumelo ou mate?/ não me importam os sexos/ dos anjos e santos/ nem mesmo as tardes/ de damas e dominós".
 P.S. A função do papel higiênico é limpar as sujeiras do corpo. Logo....

(Correio da Paraíba, 11 de agosto de 1992)

The end

um fósforo
de carne e osso
acendendo o fogo do desespero coletivo
em sua inconsciência senil

(para que antecipar o adeus ao nosso corpo
quando ele mesmo prefere plantar uma flor?)

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Academia vs. Poecodebar

"Eles são piores que o papel higiênico"


 "Nas suas palavras ensebadas, eles acham que guardanapos valem mais do que a nossa famosa Academia. Em represália, classifico-os piores que o papel higiênico".
 Assim reagiu a presidenta da Academia Paraibana de Poesia, professora Helena Raposa Carneiro da Cunha ao "Manifesto Poecodebar", lançado segunda-feira passada pela manhã na Sala Preta do Departamento de Comunicação da UFPB, pelos poetas Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior. Um dos parágrafos do manifesto, publicado pelo CORREIO na íntegra, foi incisivo: "Acreditamos que os guardanapos têm mais utilidade do que a Academia Paraibana de Poesia" (com o nome da entidade em caixa alta).
 Em reação à matéria "São os novos que falam: a poesia na Paraíba parou com a Geração 59", assinada pelo repórter Chico Noronha, disse que os quatro integrantes do Projeto Cultural Poecodebar não são "formas humanas, mas na realidade vírus. É uma trupe por muito desconhecida que veio procurando enodoar a vida da Academia Paraibana de Poesia, entidade que dirijo e é acatada pelos mais elevados nomes do Congresso Nacional, especialmente os nossos deputados e senadores".
  - Quanto à programação da nossa Casa - disse Helena Raposo ao CORREIO - aqueles quatro micróbios procurem sanear moralmente as suas vidas. Não lhes cabem este direito.
 Os integrantes do Poecodebar haviam dito na entrevista publicada no último dia 2 que a Academia Paraibana de Poesia deveria fazer concursos e publicações.
 A presidenta da entidade devolveu a provocação, dizendo ainda sobre os quatro integrantes do Poecodebar: "Poetas? Puro engano. São pobres diabos. Eles lá sabem o que significa um soneto? Desconhecem a belíssima escola sonetista Giaccomo Lentine. Nas suas palavras ensebadas, acham eles que guardanapos valem mais do que a nossa famosa Academia. Em represália, classifico-os piores que o papel higiênico".
 Helena Raposo destacou que não deseja entrar em polêmica com "aquele grupo de baixaria", mas que "é pancada contra pancada. Aqui eu paro, deixando aqueles insanos latindo e insultando os que progridem no cenário da vida pública".
 Sobre o autor da matéria, Chico Noronha, a presidenta da APP destacou: "Ele deve me conhecer, pois é jornalista tarimbado, conseqüentemente sócio da nossa Associação Paraibana de Imprensa, casa cultural a que pertenço há mais de 35 anos, sendo classificada como elemento dos mais estimados".
 A Academia Paraibana de Poesia, também conhecida como Casa Manuel dos Anjos, é reconhecida pelo Poder Executivo com personalidade jurídica e tem sede á rua Barão do Triundo, 460, Centro, em João Pessoa. Sua presidenta também enviou ao CORREIO, com pedido de publicação, o artigo "Interiorização Acadêmica", de Ricardo Bezerra, presidente do Gabinete Paraibano de Cultura (originalmente publicado no semanário O Combate, edição de 2 a 8 do corrente mês).

(Matéria publicada no jornal Correio da Paraíba, em 9 de agosto de 1992)

Timidez

em meu corpo
tua alma nua
em nós dois
o beijo de amar
e o medo de vestir o prazer na rua.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior)

A poesia pode estar num guardanapo

 "A poesia pode estar em tudo", dizia Manuel Bandeira. Ele que foi o "São João Batista" do Modernismo brasileiro, na feliz expressão de Mário de Andrade. A declaração do poeta pernambucano não só diz da natureza ubíqua da poesia, tão reivindicada pelos jovens de 22, sobretudo por aqueles que seguiram, mais ou menos ao pé da letra, as diretrizes por ele estabelecidas. Por ele, pelo próprio Mário e por Oswald de Andrade, principalmente.
 Está em tudo diz também dos motivos da cotidianeidade, do pouco-a-pouco, do dia-a-dia, das coisinhas miúdas que, por esta ou aquela axiologia das poéticas, não cabiam dentro da métrica sagrada de um soneto ou mesmo no etéreo mosaico das imagens simbolistas. Está em tudo quer dizer ainda que a poesia está nas palavras, mesmo ns barbarismos universais. Daí, a novidade não somente de um veio temático múltiplo e radical, mas também de uma linguagem cuja característica maior reside na coloquialidade, com tudo que ela traz de espontâneo e informal. De repente, em território brasileiro, a escrava do Ararat estava despida. Escrava-mulher que representa a poesia na parábolado grande Mário, em "A Escrava que não é Isaura" (1925). Despida significa, na verdade, livre das regras e dos preconceitos das escolas, à disposição, portanto, do "direito permanente da pesquisa estética".
 Se esse caminho depara certos bloqueios com os chamados da "Geração 45" e mesmo com o experimentalismo da Poesia Concreta e adjacências, sofre, contudo, uma retomada, com novas características e novos rumos, a partir dos anos 70, com o que se convencionou chamar de Poesia Marginal. Uma poesia de extração contracultural em certo sentido e, num outro, de ostensivos compromissos políticos à maneira de reação verbal ao império da ditadura, posterior a 64 e, especialmente, a 68. Esteticamente, uma poesia de linguagem solta, informal, rasteira, agressiva, mas também lúdica e bem humorada, a par de uma motivação confessional, erótica, chocante, centrada sobretudo no pathus da experiência vivida. Quando em nada, pelo menos experimentada na próxima tessitura das palavras e no jogo prazeroso de criar. Criar ludicamente, num gesto que recupera a gratuidade de viver uma diminuta experiência de sonho, curtição e utopia.
 É este toque de marginalidade poética que parece sustentar, num momento bem diferente daquele, o movimento/brincadeira Poecodebar, ou seja, poesias coletivas em mesas de bares, desenvolvido pelos alunos do Decom/Departamento de Comunicação Social da UFPB: Wilton Júnior, Linaldo Guedes, Fábio Albuquerque e Alexandre Palitot.
 Face ao papel em forma de guardanapo e ao jeito meio artesanal de produção e veiculação dos poemas, na verdade uma espécie de happening lúdico-etílico-poético, percebe-se que a marginalidade persiste. Se antes pela repressão política, hoje pela recessão econômica, ou, quem sabe, pelo simples prazer da opção. Marginalidade, aqui, tomada num sentido menos datado historicamente. Mas apenas no que pode tocar à procura de novas alternativas e de novos espaços para a viabilização da palavra poética. Por exemplo: a poesia fora do livro; a poesia fora da biblioteca. Por exemplo: a poesia no parque, a poesia na rua, a poesia nos bares...
 Ora, super válido!
 Que mais quer um poeta senão dizer e mostrar sua poesia ao mundo. Dizê-la e mostrar sua poesia ao mundo. Dizê-la e mostrá-la através de molduras diferentes, eis um outro desejo do poeta. Expressar-se, não é precisamente isto que todos queremos? Quanto mais se formos poetas... Até porque expressar-se é um direito. Pois bem, os poetas do Poecodebar têm mesmo é que fazer valer o seu direito: ousando, inventando, livremente, quer a crítica fale ou silencie.
 Pela mostra do Nº 3, contando com a colaboração de Wilton Júnior, Linaldo Guedes, Fábio Albuquerque, Alexandre Palitot, Rogéria Araújo, Gerimaldo Nunes, Livaneide Guedes, Gustavo Magno e Elionaldo Varela, creio que alguma coisa acontece...
 De saída, o recorte metalingüístico privilegiando as sinuosidades da dicção lírica. A propósito, o que vem demarcando por excelência o discurso dessa já longeva modernidade. E, curioso: algo nem tão informal assim, mas todo argamassado numa modulação presidida pela contensão do ritmo e pela adequação vocabular, como se pode ver em "Versidade", poema de Wilton Júnior: "à noite/ não sou/ nada mais/ que papel em branco/ ou rascunho/ de um poema incompleto:/ é quando o poeta se camufla/ à espera da presa/ - o próximo verso". Na seqüência de metalinguagem, os textos "A prosa", de Linaldo Guedes, e "Artvício", de Rogéria Araújo, ambos, no entanto, sem a densidade e o equilíbrio literários do exemplo anterior. O primeiro demandaria um trabalho rítmico e alguma seletividade lexical; o segundo, em que pese a fusão sujeito/objeto para metamoforizar o processo criativo no plano da idéia, não convence enquanto elaboração lingüística.
 De outra parte, garante um bom nível de literariedade o poema "Plágio", de Fábio Albuquerque, sobremaneira pelo impacto das imagens, imagens inventivas, e pela cadência anafórica dos paralelismos. Vejamos as duas primeiras estrofes: "deus/ você precisa sair da taberna/ pegar um ônibus/ e sentar-se à esquerda dos demônios/ deus/ você precisa ouvir os berros da mãe/ suportar minha mão viciosa sobre teu corpo/ e declamar toda tua solidão num guardanapo". Pena que a última estância do texto não carregue, do ponto de vista imagético, o vigor que vinha demonstrando.
 O erotismo de Elionaldo Varela, por sua vez, tem o gosto da fruição lúdica derramado na brincadeira, com as palavras, embora as imagens cedam ao lugar comum de certa tradição da lírica romântica, o que de certa forma se dá também com o poema "Inverno", assinado por Linaldo Guedes e Wilton Júnior.
 Decerto os desacertos, neste ou naquele texto, decorrem da gratuidade do artefazer do Poecodebar. No entanto, não se pode negar que a poesia, sobremaneira a poesia enquanto dimensão lúdica do viver e resistência utópica e cultural, não se patenteie por entre os versos coletivos nascidos nas mesas de nossos bares. É bom descobrir que um guardanapo tem outras serventias.

Hildeberto Barbosa Filho - Crítico e Professor da UFPB

(Texto publicado no jornal O Norte, em 2 de agosto de 1992)

Sinopse

nenhum homem vive só...
além de sua sombra
e seu copo
ele tem sempre alguém para pensar

nenhum homem vive só...
além de sua alma
e sua bebida
ele está sempre em alguém do outro lado do mar.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Um manifesto à poesia marginal

Ricardo Anísio

 Nossa cidade tem vivido diversos movimentos artísticos nos últimos anos. A música em sua produção local-louca-nivelada chega até a batizar o Sesc de Templo da MPB. Os artistas plásticos arengam para dividir mercado e poder. O teatro fatura prêmios nacionais e convence até os leigos de que é válido investir na nossa arte cênica. Mas uma coisa ninguém pode negar: a literatura, a poesia principalmente, ficou escanteada, dependendo da produção marginal, dos sonhadores maravilhosos e suas arrojadas luas.
 Foi da necessidade de preencher esta lacuna poética, que os alunos do curso de Comunicação Social da UFPB, Linaldo Guedes, Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque e Wilton Júnior explodiram em seu projeto Pocodebar. Versos na mesa de bar. Versos nos guardanapos. Coisa muito boa desses malucos indispensáveis à paisagem cultural da cidade. Coisa de gente sensível que muda quando é lua cheia. Um movimento que deve sacudir a produção poética e, quem sabe, estimular as autoridades a traçarem um programa editorial ao mesmo tempo em que Gestos Lúcidos, de Sérgio de Castro Pinto, completa 25 anos e que Caetano Veloso emplaca meio século de vida.

(Artigo publicado no jornal O Norte, edição de 2 de agosto de 1992)

O riacho

nesse riacho que me leva
sou o córrego vermelho
que teme as pedras

nesse riacho que me esconde
sou a correnteza parada
que engole os peixes

(num dia de sol
a cachoeira deu o bote
no coração do riacho moreno).

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

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