Trilha


sigo
são...
meu mar na mão
seu sol no seio
você virgem na veia


sigo
sugo:
o grão
de teu corpo germinal
a areia
de teu deserto vaginal
o pó
de tua erva marginal


sigo
sempre
o signo
- ente transcendental.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior)

MANIFESTO POECODEBAR

1ª Dose:

Bastam os dinossauros!
Basta de colonialismo provinciano!
Se houve espaço para o NOVO, seria  possível analisar com maior profundidade a produção POÉTICO-UTÓPICO-MARGINAL dos novos poetas ou de qualquer outra forma de alucinação artística.
Porque todos nós somos poetas! Todos temos um pouco de pus-poesia, no âmago do peito ferido, só percebido através de um olho mágico-bêbado.
Acreditamos que, apesar das distâncias entre as ilusões, não podemos mais aceitar as algemas da palavra "NÃO"! Não queremos mudar o mundo, mas já nos fizemos por demais vítimas do boom marginal.
Abaixo o poder da mídia conservadora aliada ao medo do NOVO! Contra a vã guarda das antigas vanguardas! Contra a ditadura poética! Contra todos os disfarces e suas faces!
Afinal, até quando seremos inocentes piratas de reação em perpétuo silêncio? Para que os textonautas cheguem ao espaço. Poetas do mundo, uni-vos!

2ª Dose:

Por todos aqueles que não querem sentar no banco dos réus da crítica literária! Contra todos os julgamentos medievais!
Contra as funções da crítica! Em benefício a democracia literária. Fora todos os dragões e São Jorges!
Em defesa da qualidade do NOVO! Contra os "imaturos" pré-taxadores de imaturos!
Porque estamos putos e não existe sociedade mais puta do que a dos poetas anônimos. Acreditamos que não podemos mais nos conformar com julgamentos idiotas. Também não queremos ter direito a advogados.
Afinal, o que é poesia? Um nome famoso ou uma forma de se ver a íntima realidade? Quem é o poeta? Quem faz poesia ou quem tem um livro na praça?
Questionamos o medo desses antigos jovens, pois medo não faz mais parte do dicionário da nossa geração. Acreditamos que a poesia não se revela pela idade, mas pelo sonho dentro da idade. Afinal, o que importa: a idade ou o ânus?
Abaixo a crítica que, com sua ânsia de julgar o NOVO como se já fosse velho, não percebe as heresias vomitadas pelos poetas nos bares, que vomitam poesias, transformando a embriaguez em poema.
Porque não aceitamos a fama nem a fome!
Exigimos a mudança de opinião versus o radicalismo! Porque não adianta escrever para uma "turminha-de-críticos-tão-críticos" que não possuem a estranha mania de sentar-se numa mesa de bar.
Acreditamos que os guardanapos têm mais utilidade do que a ACADEMIA PARAIBANA DE POESIA.
Aperfeiçoemos nossos passos! Nunca nos escondamos na sombra alheia! Poetas, coragem! Vontade! Desengavetemos nossos anseios!

3ª Dose:

Para que, na balada de um futuro bem próximo, a poesia não venha a servir apenas para enfeitar os anúncios da Coca-Cola nem tão pouco para ser recitada nos cabarés da Cidade Baixa.
Para quebrar o espelho do silêncio!
Para arrancar o sorriso dos podres pudores!
Em defesa daqueles por quem os sinos não dobram!
Abaixo todas as (com) TRADIÇÕES!
Haveremos de pular as grades, saltar pela janela, adentrar na capela e badalar todos os sinos.
POECODEBAR é a prova de que, entre o velho e o NOVO, a poesia pode ser encontrada numa mesa de bar.
Que tudo nos ouça! Assimilem ou não!

(Publicado no jornal Correio da Paraíba, em 2 de agosto de 1992)

O beijo e a maçã

quando tua boca pedir um beijo
e a maçã estiver podre
não tenha medo de pedir exílio

quando tua boca pedir exílio
e a maçã estiver sem cor
não se acanhe de pedir um beijo

quando acabar o exílio
não venha me pedir a maçã
nem volte para este poema.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)


Deu no jornal

Por causa de nossa geração - que parece que parece muito com esta que lança Poecodebar ou compõe a Balada do Deus Ateu e os Signos, Sinais e Signos ou monta Os Anjos de Augusto e Vau da Sarapalha - é que compreendo que a "coisa" que mais simboliza o que nos une atende pelo nome de batismo Caetano Emanuel Viana Telles Veloso.
"Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro, eu vou"... "Eu vou, por que não, por que não"... Quem começava e terminava uma música assim em 1967 tem o mesmo espírito dos raros que hoje amanhecem e deitam com a rebeldia nos bolsos e nas mãos. Não falando nos olhares. A rebeldia continua sim; apenas mudou de forma, de jeito, de estética, de expressão....

(Trecho de artigo do jornalista Carlos Aranha, publicado no Correio da Paraíba em 31 de julho de 1992)

A dúvida

cada paixão
é um instante vermelho dentro de nós
cada questão
é um instante sem lógica dentro da minha razão
cada mulher
é uma aventura em vão

(será que é?)

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)


DEU NO JORNAL

POCODEBAR
Uma brincadeira
que virou poesia


 O Poecodebar surgiu como brincadeira de uma turma de poetas numa mesa de bar em pleno 5 de agosto de 1990. A chuva estava intensa e alguém teve a idéia de rolar um guardanapo entre a mesa para se fazer poemas. Logo, outros guardanapos foram rolados e outros poemas feitos. Se iniciava, assim, a história do Poecodebar. Era Festa das Neves e, depois disso, os encontros se repetiram e em pouco tempo uma grande quantidade de poemas coletivos eram feitos e trabalhados por esses "novos" poetas.
 Alguém teve a idéia de elaborar uma forma para divulgar o que estava sendo produzido. Surgiu, então, a idéia do Poecodebar, inicialmente nomeado de "Poecodeguar". A idéia de trocar o "guar" pelo "bar" foi de Jomard Muniz de Brito, que até então era o maior incentivador do projeto. Ficou-se então batizado de Poecodebar (que significa, literalmente, Poesias Coletivas em Mesas de Bares) a idéia de lançar um panfleto poético em forma de guardanapo. O primeiro número foi lançado no NAC (Núcleo de Arte Contemporânea), durante o projeto Tempos e Espaços dos Abismos 3, de JMB. O segundo número foi lançado lá, em menos de um mês. O Poecodebar era feito em papel ofício, com textos de apenas os quatro poetas originais do projeto: Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior.
 Houve uma interrupção no Poecodebar durante mais de um ano. Em março deste ano, reiniciou nos corredores do Decom a paixão de divulgar a poesia feita em mesas de bares, que, às vezes, são mais interessantes do que as feitas em escrivaninhas. Voltou a idéia de produzir mais um Poecodebar. Agora, mais maduro e mais aberto a outros poetas até então escondidos entre garrafas de bares. O número 3 do Poecodebar contém textos de mais cinco poetas da nova geração pessoense. Para comemorar o lançamento, será realizada uma manhã cultural no Decom.

(Correio da Paraíba, 29 de julho de 1992)

Aritana

meninos compondo a lua
mirando setas invisíveis
para os seios flácidos
da dama da noite.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Por quem os sinos não dobram

Wilton júnior

Em conversas com amigos, tenho escutado muitos questionamentos a respeito do "algo novo", como possibilidade do rompimento do colonialismo provinciano que paira sobre determinados segmentos da cultura paraibana. Bastam os "dinossauros"! Me venham as novidades, e junto a elas, mais novidades. Como dizia Raulzito, "nunca se vence uma guerra lutando sozinho/ você sabe que a gente precisa entrar em contato/ com toda essa força que vive guardada...". Vejo, entre nós, algumas cabeças pensantes da música, poesia e qualquer outra forma de arte ou alucinação, com grandes possibilidades de reação. De vingar e mostrar seu trabalho. Com a palavra meu amigo Elinaldo Rodrigues.

Há alguns anos, quando vim morar no Nordeste, tive que me adaptar aos mais variados costumes, logicamente. Entre numa sala de aula e, juro, às vezes não entendia bem o que o professor falava. Ao assinar o primeiro contrato de emprego, já estava incompatibilizado com o sindicato da minha categoria. Lourimar Netto, por motivos bairristas, só começou a trabalhar na imprensa paraibana após vender salada de fruta na praia. Do Mato Grosso para as telas de empresários, políticos, sindicalistas e mais um carrossel de provincianistas. No jornalismo impresso, foram vedadas as portas do entendimento da categoria. Linaldo Guedes a arrombou com o peito e nota-se a intimidade dele com as "pretinhas". Uma turma de poetas, músicos, piratas da reação, cobra seu espaço.

Às vezes somos tachados de inseguros por "críticos" e outros juízes. Petulantes ou enxeridos por quem não tem e nem teve essa nossa audácia. Descobri ser mais fácil protestar, mas também é possível mudar a direção do trem. Contestar é a nova ordem. Só há polêmica após a ação do novo. Carlos Aranha se explica. Também o Tropicalismo. Também a poesia de Arnaldo Antunes, o rock. Não é a idade. É o sonho dentro da idade. A coragem.

Quanto Fábio Albuquerque questiona Sérgio de Castro Pinto, não questiona a competência e sim o espaço. O poder da mídia conservadora aliado ao medo do novo. O insucesso é conseqüência do medo e medo não consta no dicionário da minha geração. Já nos fizemos por demais vítimas do "boom marginal". Desmistifico, assim, o sabor coca-cola na boca. Com certeza, Renato Russo sabia disso. Humberto Gessinger e sua banda "numa propaganda de refrigerant", também. Eu, há alguns meses, preferia a cachaça com cerveja. Hoje, por motivo de força maior, a vodka, o uísque,o campari.

Questionamos a mudança de opinião versus o radicalismo.

Quais os últimos grandes nomes que argumentaram e criaram movimentos alternativos-culturais neste país? Ainda saem da minha boca os polêmicos Jomard Muniz de Brito, Caetano Veloso, Wlademir Dias Piño e outros poucos remanescentes da expressão cultural dos últimos 50 anos. E são eles que ainda têm feito por nós. Os que aparecem na reta de chegada já percorreram outros caminhos. Têm a experiência dos anos sobre as costas e é isso que herdamos. Basta-nos aperfeiçoar os passos. Nunca nos escondermos na sombra alheia. Basta-nos coragem para desengavetar nossos anseios. Nós somos aqueles por quem os sinos não dobram Haveremos de pular as grades/ saltar pela janela/ adentrar na capela/ e badalar todos os sinos/ que tudo nos ouça/ assimile ou não.

***

"Coragem, coragem se você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, que eu sei que você pode mais".

(Texto escrito pelo poeta Wilton júnior e publicado no jornal A União, em 22 de julho de 1992)

Legado

não chamarei de último
o gesto que outrora foi primeiro:
quando se inicia um poema
a vida que se constrói no ar
pousa no branco da página

não chamarei de último
o verso que abre uma trilha escura

não decretarei a morte
da poesia coletiva:
estaria sepultando minhas ilusões noturnas

(procurem-me
em seus textos
discursem meu verbo).

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior)

DEU NO JORNAL

...E os poetas foram parar no banco dos réus

Linaldo Guedes

 Informa meu amigo Fábio Albuquerque que leu, num artigo de um crítico literário de renome, que uma das funções da crítica é julgar. Mesmo que isso não deixe de ser verdade, até porque o dicionário também confere esse poder aos críticos, não deixa de ser desestimulador para quem escreve saber que a sua produção vai ocupar o bando dos réus da crítica literária. Afinal, se uma das atribuições da crítica é julgar, por conseqüência os jovens poetas, como Fábio, terão que ser considerados como réus em potencial?
 Fico imaginando a enorme quantidade de poetas pessoenses que vagam pelos bares da cidade, nas madrugadas frias desse inverno irritante, submetendo sua parca produção escrita em papéis de guardanapo ao julgamento de críticos nem sempre coerentes e abertos para o que pode surgir de novo e interessante na poesia paraibana. E são tantos os poetas das noites pessoenses e as poesias por eles criadas! A maioria deles anônimos. Afinal, nem todos os críticos têm essa estranha mania de freqüentar a noite pessoense. Aliás, quem sabe se esse anonimato já não é decorrente do medo de sentar-se num banco de réus da crítica. Eu, que também integro essa casta de poetas filhos marginais das noites, fico num dilema irritante. Não sei se devo aceitar passivamente sentar-se num banco de réus ou se me conformo com a minha sina de jornalista amado, onde ora sou tachado de "charlatão", ora de "pirata de redação".
 Releio o artigo de Fábio no "Correio da Paraíba", onde ele questiona a declaração de Sérgio de Castro Pinto de que na Paraíba há mais poetas do que poesia. Admiro demais a poesia de Sérgio de Castro Pinto e talvez por isso me sinta à vontade para também questionar essa sua afirmação. Pode até ser que ele tenha razão, mas como vamos saber disso se não há espaço para a divulgação da nova poesia paraibana? Com certeza, se houvesse esse espaço, as dúvidas seriam desfeitas. Afinal, como diz o ditado, quem não tem competência não se estabelece.
 Assim, se esses filhos da noite não forem realmente poetas, o tempo e a publicação de sua produção iriam dizer isso de forma mais democrática do que um crítico literário que ocupa o espaço que lhe é destinado apenas para julgar.
 Se houvesse espaço para o novo, seria possível a crítica avaliar (eu não disse julgar), o "artivício" explícito de Rogéria Araújo ou a "imagem" juvenil de Gerimaldo Nunes, quando este diz que o "amor saiu por ai/ usando calça Lee/ só não foi preso por intervenção pública". Também seria possível avaliar o ateísmo cristão de Fábio Albuquerque, que acredita que "deus precisa dormir na rua e descobrir seu corpo numa mulher". Ou então, a tara fetichista de Elionaldo Varela pelos seios, sejam eles de Sofia Loren ou Lena Nascimento. Se não existisse tanto preconceito contra o novo seria possível analisar com mais profundidade a poesia utópica de Gustavo Magno e o lirismo mineiro de Wilton Júnior, camuflado à espera do próximo verso. Seria saudável dizer se a poesia juvenil de Alexandre Palitot e Livaneide Guedes devem sair dos bares para os suplementos literários.
 É pena que haja tanta indiferença para com o novo no nosso Estado. É pena que o valor literário de algumas poesias coletivas fiquem restritos aos corredores do Decom.
 É pena que a crítica, com a sua ânsia de julgar o novo como se este já fosse "velho", não perceba as heresias vomitadas pelos poetas nos bares que vomitam poesias, fazendo com que a embriaguez se faça poema. É pena que haja um distanciamento tão grande entre o novo e o velho, uma distância que na verdade não se mede em quilômetros, mas em ilusões.
 Se a função da crítica é julgar, coitado desses poetas que tão novos que são já tem que ver seus escritos num tribunal, quase sempre parcial, onde a produção escrita na maioria das vezes é atirada na fogueira inquisitorial, sem chances de defesa. A crítica deve, antes de tudo, aceitar o novo para depois analisar se ele tem capacidade de um dia chegar a ser considerado de fato um talento.
 A poesia não se perdeu, caro Fábio. Ela apenas está camuflada nos bares, bordéis e corredores acadêmicos da fria João Pessoa. Para ela se perder, seria preciso que houvesse sensibilidade no peito dos corações jovens. E se ela anda tão escondida é porque ninguém, na verdade, gosta de ser julgado como um criminoso. Com certeza, para serem julgados nos artigos de críticos literários, os poetas preferem que o julgamento aconteça na mesa dos bares. Pelo menos assim, nunca faltará uma cerveja para esfriar o medo da fogueira do tribunal.

(artigo publicado no Jornal A União, em 21 de julho de 1992)

Três por quatro

sou como a lua
solitário e distante

sou como a noite
burguesa e marginal

sou como o mar
infinito e assassino

sou como o espelho
verdadeiro e vulgar

sou como sou
invisível e indolor.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

DEU NO JORNAL

"Fiquei entristecido por não ter encontrado alguns exemplares de alguém que não precisa de exemplares: Sérgio de Castro Pinto; e do pessoal do Poecodebar, uma turma nova como eu, que procura bater em todas as portas e abri-las, se possível. Principalmente pelos originais de Linaldo Guedes; de outros que, me desculpem, não lembro agora. Tudo que eu quis com este texto, foi demonstrar que o equilíbrio do planeta reside em uma maior produção de poesia e música. Não importa a nacionalidade; o dever é cumprir o prometido: poetizar com a morte da vida e com o término da história. Mentir não é permitido; sentir somente o (im)possível. Este é o ápice da nova e eterna aliança, amém!".

(Gustavo Magno, em trecho de artigo publicado no jornal Correio da Paraíba em 5 de julho de 1992)

Sentença

não adianta
pular o mundo
você tem que pular o muro
da esquina virgem
que ainda não foi devorada

não adianta
a poesia apadrinhada
você tem que regar os canteiros
do livre-pensar

não adianta se disfarçar
você tem
que rasgar a face dos versos
que repousam em sombras
sem parágrafos.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Entre o velho e o novo, a poesia se perdeu

Fábio Albuquerque

Vez por outra percebo nos meios jornalísticos e culturais da nossa "Paraibarroca", alguém preocupado com a atual condição a que foi relevada a produção poética local.

Gustavo Magno insistentemente em seus artigos aborda o problema (?) da falta de concursos e publicações que, certamente, estabeleceriam o incentivo e proporcionariam espaço para os novos poetas. Ivaldo Gomes chega a perceber avidamente a importância dos novos talentos, mas admite que "só não há quem os faça chegar ao povo". O professor e poeta Sérgio de Castro Pinto, em entrevista ao CORREIO, pisou em cima da atual ferida que circunda os poetas, quando afirmou que "na Paraíba há mais poetas do que poesia". Pois bem, poetas todos nós somos. (Somos?) Todos nós temos um pouco de PUSpoesia no âmago do peito ferido, atrás de um quadro escondido por uma janela, só percebido através de um olho mágico bêbado. Se todos nós somos poetas, ontem estão as poesias? Com toda a certeza, as gavetas sabem mais sobre este assunto do que milhares de olhos sedentos e insaciáveis. Serão muitos os poetas e baixa a qualidade? Tudo bem! Mas como saber isso, se os inúmeros poetas e as péssimas poesias nem sequer estão sujeitos a uma apreciação de seus admiradores? Se nem sequer há apoio ou espaço para estes milhares de poetas mostrarem seus trabalhos? Se os nossos próprios suplementos culturais insistem em aplaudir os velhos (de fora) e bater a porta na cara dos novos (de dentro)? Se os próprios poetas aceitam com passividade as algemas da palavra "Não"?

Nesta disputa beletrista, que na verdade não passa de covardia, entre o velho e o novo, quem sai perdendo é a poesia. A literatura. A cultura.

Como mostrar qualidade, se tudo que é novo é pré-tachado de imaturo? Se tudo que é velho é maduro? Será que em nenhum momento o novo pode aqui ser melhor do que o velho?

Não estamos aqui para contestar o valor da Geração Sanhauá. Mas sim para dizer a Hildeberto Barbosa Filho que a "ponte para a modernidade" está interditada. E até hoje ninguém sabe o que é Pós-Moderno?

Ora, se porventura o mestre Drummond escrevesse um poema ridículo, este não o seria, pois, por mais ridículo que fosse, tratava-se de uma obra do Exmº Sr. Drummond. Mas se no mesmo momento um poeta anônimo escrevesse algo melhor apreciável do que o escrito "ridículo" de Drummond, este seria mais motivo para aportá-lo. (?) Que me responda porque, a vã inteligentzia. Afinal, o que é poesia? Um nome famoso ou uma forma de se ver a íntima realidade? Afinal, quem é o poeta? Quem faz poesia ou quem tem um livro na praça? Os Burros "também amam meu amor"! Se a poesia não existisse "nos fatos, nas fotos, nos atos do cotidiano", Oswald de Andrade teria sido, de qualquer forma, um poeta?
 Infelizmente, ainda são poucos os "não neuróticos" que, apesar das rugas, sabem reconhecer o valor do novo, sabem distinguir os Ácaros dos Ícaros em um simples pedaço de papel em branco. Estes, sim, não têm medo de olhar para a frente e para trás. Não têm medo de encontrar no novo sua velha novidade. Carlos Aranha, um mister da palavra, sabe que "de repente você pode ser um desses novos poetas e uma outra pessoa tem medo de que o novo seja melhor que o velho". Certamente, a razão ABISSAL, do textonauta Jomard Muniz de Brito, é lógica quando nos fala da "morte da cultura popular" num Bordel BRASILírico Bordel.

Espero que, na balada de um futuro bem próximo, a poesia não sirva apenas para enfeitar os anúncios da Coca-Cola e/ou para ser recitada nas calçadas, cabarés e janelas da avenida Maciel Pinheiro. Se as flores murcharem, não será por falta de poetas, mas de poesias. Não existe sociedade mais pauta que a dos poetas anônimos. Se "um poeta é puto", navegamos hoje, além da palavra, à procura de um cais.

Não é de hoje que sabemos da existência de uma realidade ambígua para cada olho lúdico. Enquanto os amantes da poesia continuarem quebrando os copos e eesquecendo de vomitar as doses embebidas, Mauro Mota estará ciente de que "há no ato de escrever uma certa semelhança com o ato de cagar..."

Fica neste pré-texto apenas a intenção de registrar que a poesia não morreu nas gavetas, ela apenas adormeceu... Poecodebar é a prova de que, entre o velho e o novo, a poesia pode ser encontrada numa mesa de bar.

Fábio Albuquerque é estudante de Comunicação Social da UFPB e participante da Geração Poecodebar

(Correio da Paraíba, 11 de junho de 1992)

Poecodebar

bares vomitam poesias
poetas vomitam heresias
e entre horas e horas
vazias
a noite cai
já não importa onde

garrafas vão surgindo
pensamentos vão fluindo
sonhos e malícias
repetidos nas estrelas
enquanto a embriaguez
vai se fazendo poema.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

AOS LEITORES

O Poecodebar surgiu no início da década de 90.

Fruto de uma brincadeira surgida em uma mesa de bar durante a Festa das Neves (a festa da padroeira de João Pessoa, realizada a cada 5 de agosto), o Pocodebar teve este nome batizado por Jomard Muniz  de Brito, poeta e agitador cultura, que na época era professor dos quatro integrantes do grupo: Alexandre Palito, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior.

Literalmente, o grupo quer dizer Poesias Coletivas nas mesas dos bares.

O objetivo era, basicamente, fazer poemas coletivos, defender espaço para os jovens autores na imprensa local e levar a poesia aonde o povo estava.

Por isso, o grupo encenava seus poemas individuais e coletivos nos bares, circuitos alternativos e teatros da cidade e de outros locais, chegando a se apresentar no Congresso de Teoria e Crítica Literária organizado por Elizabeth Marinheiro em Campina Grande e no Festival de Artes de São Cristóvão, em Sergipe.

O grupo também lançou panfletos poéticos em forma de guardanapo e um manifesto com três doses poéticas. A partir deste manifesto, se criou uma polêmica com a Academia Paraibana de Poesia, que durou vários meses nos jornais locais. Polêmicas também eram apresentações do grupo, sempre criticando valores estabelecidos, como religião, sexo, família e a própria poesia.

A partir de hoje, estaremos colocando aqui a história do grupo. Para quem pensava que o Poecodebar era apenas um movimento brincadeira, como disse um crítico na época, até que muita coisa rolou em torno do grupo. Os textos de e sobre o Poecodebar (a favor e contra) serão disponibilizados neste espaço, como fonte de pesquisa sobre um período importante da literatura paraibana, assim como os poemas do grupo.

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