Último vesperal

na véspera do fim do mundo
vou vestir o luto dos mortais
cuspir o fogo da heresia
e ressuscitar as almas do apocalipse

na véspera do fim do mundo
vou cantar a valsa da agonia
catar flores para túmulos incrédulos
e vomitar o preto nos jardins dos sádicos

na véspera do fim do mundo
serei uma criança perdida num jardim sem infância
um deus invisível na claridade do dia
um demônio visível na escuridão da noite

na véspera do fim do mundo
recitarei minha última poesia
e vestirei minha última fantasia
quando for esmagado pelas palavras.

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

Ecos do Poecodebar

"Movimento brincadeira" ressuscita imortais

Linaldo Guedes

"a tua piscina está cheia de ratos/ tuas idéias não correspondem aos fatos/ o tempo não pára". (Cazuza)

 Peço licença à excelentíssima Academia Paraibana de Poesia para fazer algumas divagações sobre os últimos acontecimentos envolvendo os integrantes do grupo Poecodebar. Não queremos polemizar com a Academia, até mesmo porque ficou patente neste fim de semana que ela é mais importante para o Congresso Nacional do que para a poesia paraibana. De qualquer forma, não dá para ficar calado após ler tantos insultos saídos das bocas de pessoas que se dizem cultas. Aliás, no cômputo geral, recebemos mais elogios do que insultos.
 Nos chamaram de vírus. Tudo bem. Assumimos com prazer essa definição. Às vezes, o vírus é utilizado para combater a própria doença e é isso basicamente o que queremos. Nosso objetivo já está sendo alcançado em parte. Queremos combater a doença do preconceito contra o "novo" de algumas pessoas que se dizem poetas apenas porque sabem fazer sonetos. E quem disse que poesia se resume a sonetos? Se assim fosse, não existiria poesia em Oswald de Andrade. Gostamos de alguns sonetos de alguns poetas brasileiros, como Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, mas não temos o mínimo tesão para faze-los. Fazer soneto é como andar de gravata e palitó. Tira a liberdade e nós estamos justamente combatendo esta escravidão da poesia paraibana aos métodos que hoje são tão antigos e ultrapassados quanto defender a instalação de um regime comunista nos moldes do que existia na antiga União Soviética.
 Como falei, nosso objetivo está sendo aos poucos atingido. Durante a premiação no Concurso de Poesias do Sesc, onde dois integrantes do Poecodebar ficaram entre os três primeiros colocados, conversamos com Saulo Mendonça e ele nos disse que estava disposto a abrir um espaço para os novos no Correio das Artes. Domingo, em sua coluna no CORREIO, Sérgio de Castro Pinto, um dos poucos poetas da velha geração que admiramos, disse também que estava abrindo espaço para a jovem poesia feita em João Pessoa. Para nós, foram duas provas incontestáveis de que estamos no caminho certo.
 Não temos a mínima frustração por não pertencermos aos quadros da excelentíssima Academia Paraibana de Poesia. Percebemos domingo, que a linguagem utilizada lá dentro não é a mesma que é utilizada nas ruas e nos bares pessoenses. Preferimos continuar escrevendo em portas de banheiro, papel higiênico e guardanapos do que escrever para ser reconhecido pelo Congresso Nacional. Não fazemos poesia para políticos.
 Um "deles" insinuou que poderíamos ser alvos de um processo judicial. Não temos medo. Afinal, será que a função da Academia é esta? Se estamos desinformados sobre as atividades da Academia, é porque a divulgação não está sendo bem feita. Talvez estejam precisando de um assessor de imprensa. Por que não contratam um? Existem tantos jornalistas desempregados neste Estado...
 Poecodebar não é um "movimento brincadeira", como afirmaram alguns antes do lançamento do nosso manifesto, e muito menos um movimento "pré-fabricado", como disseram outros. Não temos a intenção de liderar um movimento literário. Temos, sim, propostas que são sérias. Queremos procurar a luz na escuridão, sem o mínimo ranço com os velhos. Respeitamos a todos, mas queremos que todos nos respeitem também. Quem soube ler a entrevista de Wilton Júnior e Fábio Albuquerque a Chico Noronha, percebeu claramente a nossa proposta. No fundo, preferimos ser uns "pobres diabos" do que intocáveis deuses. Estamos cansados de tanto sermos pisados por dinossauros.
 Para não cansar a paciência do leitor com tanta polêmica inútil, transcrevo aqui um poema de Wilton Júnior feito no último domingo. Ele resume um pouco a nossa visão sobre a Academia Paraibana de Poesia:
 "em minha língua/ a ferramenta exata/ para construir sua ira/ meus punhos e dedos/ responsáveis pelo seu ódio/ e insônia/ minha coragem/ cavalgando sobre suas rugas/ não me importam os chás/ -cogumelo ou mate?/ não me importam os sexos/ dos anjos e santos/ nem mesmo as tardes/ de damas e dominós".
 P.S. A função do papel higiênico é limpar as sujeiras do corpo. Logo....

(Correio da Paraíba, 11 de agosto de 1992)

The end

um fósforo
de carne e osso
acendendo o fogo do desespero coletivo
em sua inconsciência senil

(para que antecipar o adeus ao nosso corpo
quando ele mesmo prefere plantar uma flor?)

(Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes, Wilton Júnior)

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