Fotopsia
as fotos revelam ausência
as bocas cantam tua distância
em meu peito o sangue chora
as máquinas em triste sonolência
as mãos imaginam tua infância
em meus olhos o choro sangra.
Novos dizem o que não sabem, garante Jairo
No último dia 2 de agosto do corrente ano foi publicada matéria jornalística "São os novos que falam", na página 8 do jornal Correio da Paraíba. Na verdade, falam mesmo o que não sabiam, não podiam e não deviam. Primeiro, levando-se em conta a total irresponsabilidade de declarações, sendo até passível de processo judicial por tamanhas aberrações. Segundo, pelo total e periférico desconhecimento dos eventos culturais da Paraíba e das atividades da emérita Academia Paraibana de Poesia. Julgando-se pioneiros naquilo que já foi Transitado e Julgado, como fazer poesia em bar, ofício esse já praticado por Vinicius de Moraes, Toquinho, Gregório de Matos, Castro Alves, Machado de Assis e seus antecessores, sendo uma idéia tão original e inédita quanto a idade paleolítica. "Inútil" certamente a Academia deve ser para aqueles que não conhecem seu trabalho.
A crítica, ela é válida sim, quando ela se propõe a alguma coisa; não apenas criticar por criticar para aparecer em jornais com manchetes bombásticas, à procura de uma luz na escuridão, pois os verbos gritar e berrar, a gramática já os codificam bem. "Zuada e barulho" é típico da incoerência e isso, qualquer um faz. Todavia, se faz mister, quando se falar, saber o que diz e usar da lógica e metodologia fundamentada, não simplesmente por aparecer ou amossegar-se em instituições sérias como a Academia, puramente por ignorância de suas atividades e frustração de não fazer parte de suas atividades.
Inutilidade, velhice e falta de oportunidade, palavras melancólicas, desesperadas e caóticas para aquilo que se propõem. E para os desavisados e subnutridos de informação, o que é lamentável para os futuros "profissionais de comunicação", completamente alheios ao fato e à notícia, no último 27 de julho deste ECO ano 92, a "Inútil" Academia promoveu solenidade de encerramento a uma série de palestras sobre a obra e a vida do imortal Silvino Olavo; da obra do poeta e escritor João de Deus, contando com diversas autoridades do meio; neste mês iniciará o lançamento de sua brilhante aquisição, a jovem poeta Tânia Rocha, com seu livro "Imaginação Solta". Também em agosto, a Academia fundará a UBT (União Brasileira de Poetas e Trovadores), seção Paraíba, já com a diretoria pronta e documentação necessária; em meados de setembro participará do II Congresso Literário Brasileiro, em Campina Grande, fazendo também palestras sobre a obra de Augusto dos Anjos nas escolas municipais e estaduais e estendendo-se também às cidades do sertão paraibano e, concluindo suas atividades, com o encerramento do curto de Poetas e Sonetistas Turma 92.2, em dezembro, tendo como paraninfo da turma o poeta e governador Ronaldo Cunha Lima, que também teve seu disco "Sem limites", lançado pela Academia alguns anos atrás.
A palavra "Inútil" (derivada do latim "inutile") sinônimo de obsoleto, imprestável, sem qualquer utilidade, não parece fazer jus a uma instituição que promove eventos culturais, mensalmente e às vezes até semanalmente, que os "menininhos" intitulados poetas que ninguém sabe por quem e de onde... assim a denominaram. A experiência é irmã da sabedoria, prima da filosofia, mãe de todas as ciências. Criticar as pessoas mais idosas e experientes que não conhecem e nem sequer sabem o que fazem, é antes de tudo anti-ético, imprudente, imoral, devido aos trabalhos já prestados à educação e à cultura deste estado. Enquanto os menininhos ainda trocavam fraldas, a maioria dos acadêmicos da Academia já fazia poesia, poesia de conteúdo e substância, com estilo, métrica, rima e soneto. Não palavras obscuras, escritas em portas de banheiro, papel higiênico e guardanapos.
Quanto ao espaço ou à procura da luz do sol, um também conhecido poeta paraibano já dizia que "quem sabe faz a hora não espera acontecer" - Geraldo Vandré.
E quem tem competência se estabelece, como a nova geração de poetas da Academia, a jovem Tânia Rocha e o mais recente imortal da Academia, Martinho Ramalho Melo, que se estabeleceram com o seu trabalho, esforço e dedicação, tendo suas obras reconhecidas pela Academia, sem esquecer o talentoso e também jovem Ricardo Bezerra, que hoje é reconhecido intelectualmente não só na Paraíba, mas em todo o Brasil. Todos fazendo parte de uma proposta de renovação séria da "Inútil" Academia, sobre pessoas que realmente têm um trabalho e uma mensagem de cultura e de vida para a população. Além disso, já pregava esse espírito o meu amigo e orador de todos os tempos, o acadêmico Amaury de Vasconcelos, em suas palavras na posse do reitor Antônio Sobrinho, da UFPB, na memorável Academia Paraibana de Letras: "As instituições culturais e educacionais estão acima de qualquer coisa". Ignorar o velho, antigo, tradicional, passado e experiência é ignorar nossa própria história.
Para o grande pensador e filósofo grego chamado Platão: "Não se pode pensar no futuro, sem olhar para o passado". As nossas vidas e o cotidiano já têm nos demonstrado isso; já o Messias da imprensa nacional, Assis Chateaubriand, que este comemora seu centenário, sempre foi um inovador, um homem de vanguarda, à frente de seu tempo, sendo sempre um contestador, mas com críticas construtivas, sem agressão ou sem a pretensão de ser o dono do mundo, do certo e do errado, com uma sapiência e consenso sem igual, razões pelas quais sempre foi admirado por seus adversários, se é que na verdade teve algum à sua altura.
Tampouco os filósofos iluministas René Descarte, John Locke e Isaac Newton, que também sempre foram oposicionistas ao tradicional sistema, mas através de seus ideais e posicionamentos revolucionaram os pensamentos da humanidade, dando uma nova diretriz e impulso às futuras reivindicações sociais que estavam por vir, sem esquecer Montesquieu, em seu "Espírito das Leis", que proporcionou um novo doutrinamento na aplicação das ciências jurídicas e sociais, ou tampouco Rousseau e Voltaire, que na França idealizaram uma série de mudanças sociais, servindo de subsídio até hoje às novas concepções políticas, sociais, econômicas da democracia moderna. Na Literatura, a transformação sempre esteve presente com Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues, José do Rego; ou na Pintura de Guernica, de Picasso, na Música de Beethoven, Strauss e Tchaikovski, a mudança e inconformismo atuaram no papel principal. Por conseguinte, mudar, transformar e protestar fazem parte da humanidade desde que o homem é homem e que ele comeu a maçã do pecado, desobedecendo a Deus, seu primeiro e único criador, só que deve haver maneira certa e correta e, segundo seu filho Jesus: "Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra". Ou seja, não julgue para não ser julgado, nem tampouco pré-julgar o que não se sabe ou não se tem conhecimento, nem intitular-se o dono da razão, pois esta é fruto da idéia tão sabiamente explanada por S. Tomás de Aquino em suas doutrinas religiosas, mas sem jamais agravar as religiões contrárias à sua fé.
A contradição é o princípio maior de uma sociedade politicamente organizada, desde que seja devidamente usada, pois o seu descumprimento implicará em liberalidade e libertinagem, e não em liberdade, que é o direito do cidadão de ir e vir e fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Contudo, agredir à Academia é ferir a cultura paraibana, é manchar as cores da bandeira do Nego, é repudiar os ideais de Epitácio Pessoa. Agredir pelo livre prazer, é no mínimo uma prova cabal e fiel de insanidade mental e loucura, a uma instituição que ao longo de sua história vem enaltecendo em nome da Cultura, a educação, a arte, a poesia da Paraíba, instituição essa que mantém-se na fortaleza da sabedoria, disparando seus canhões contra a ignorância e o analfabetismo, seus inimigos seculares. Em suas muralhas, ostenta a linha de fogo com José Lins do Rego, Ariel Farias, D. Adauto e José Américo; em sua retaguarda com versos lúdicos e sonetos telúricos, com Balila Palmeira, Abigail Pereira e Lindalva Xavier, todas abastecidas pela oratória inflamante e certeira de Diva Batista, com a bandeira na mão, a musa da Literatura Paraibana e presidente Helena Raposo Carneiro da Cunha, sendo escoltada nas laterais pelos poetas e historiadores Adauto Ramos e Zilma Ferreira e tantos outros que suas vidas se confundem com a própria cultura e literatura da Paraíba e do Brasil.
Este emérita Casa que conquistou seu lugar ao sol com sangue, suo e lágrima, fazendo hoje parte da própria cultura nacional, sendo reconhecida e mantendo lanços de intercâmbios culturais pelas próprias Academias Brasileiras e Paraibana de Letras, pela Ordem Nacional dos Escritores, União Brasileira de Poetas e Trovadores, Instituto Histórico da Paraíba, entre dezenas de entidades nacionais, diversas vezes homenageadas na Tribuna do Congresso Nacional pela ex-senador Marcondes Gadelha e o senador Humberto Lucena, entre outros parlamentares daquela Casa, pelo reconhecimento do seu trabalho e empenho pró-cultural e pelo esforço pessoal de seus acadêmicos. Sem dúvida alguma, hoje tenho certeza que falar é fácil, mas constituir um nome, um patrimônio cultural onde divulgar poesia e arte é um dogma sagrado. Para mim, ainda acredito na seriedade das pessoas e no que elas dizem, pois "o verbo, a palavra, a oratória e a poesia são as armas mais importantes daqueles que refletem a sua própria existência".
JAIRO RANGEL TARGINO (advogado militante, educador, poeta, professor e acadêmico da Academia Paraibana de Poesia)
Texto publicado no jornal A União, em 9 de agosto de 1992
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